Daniela Figueiredo: “Quero continuar a trabalhar com doentes renais e com as suas famílias”

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Daniela Figueiredo: “Quero continuar a trabalhar com doentes renais e com as suas famílias”

Daniela Figueiredo é investigadora integrada do AgeingC, grupo de investigação do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, no polo da Universidade de Aveiro (Escola Superior de Saúde), onde é Professora Adjunta.

É também investigadora principal do projeto Together We Stand – Promoting adherence in end-stage renal disease through a family-based self-management intervention, financiado pelo POCH – Portugal 2020 e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que teve início em junho de 2018 e decorre até junho de 2021.

Nasceu em abril de 1975, em Aveiro, onde fez todo o seu percurso estudantil até ao 12º ano. Concluiu a Licenciatura em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra em 2000. Regressou, então, a Aveiro, onde fez estágio em Educação e Formação de Adultos na Universidade de Aveiro, trabalhou como assistente de investigação na área da Gerontologia e começou a dar aulas.

“Tudo aconteceu sem muitos planos. Segui o meu coração. Hoje é com uma satisfação enorme que trabalho e investigo na educação e formação de adultos, em particular de adultos de idade avançada. A população mais envelhecida sempre me atraiu”, diz.

Em 2007, fez o Doutoramento em Ciências da Saúde pela Universidade de Aveiro com uma tese na área da Gerontologia, na qual comparou o impacto de cuidar de pessoas idosas com ou sem demência nos cuidadores familiares. A partir daí, o seu interesse centrou-se na compreensão dos determinantes e dos impactos psicossociais da doença crónica no sistema familiar.

Nos últimos 10 anos, como investigadora do CINTESIS, primeiro no ICBAS e depois no polo da Universidade de Aveiro, o seu principal tem foco tem sido em intervenções psicossociais centradas na família, nomeadamente em situações de demência, doenças respiratórias e doença renal crónica terminal.

“A doença crónica obriga a uma reestruturação e reorganização da vida familiar. Há uma série de variáveis que podem facilitar ou dificultar este reajustamento, como o grau de incapacidade, os recursos da família. Se conseguirmos ajudar a expressar as emoções de lidar com condições crónicas e exigentes, haverá mais vida para além da doença”, acredita.

Como líder do Together We Stand, Daniela Figueiredo explica que os objetivos do projeto passam por prestar apoio e promover a adaptação, em particular, dos doentes renais crónicos e das suas famílias às mudanças profundas que ocorrem nas suas vidas.

De acordo com a investigadora, “a doença renal é muito pesada e traz muitos desafios, mas quase ninguém fala dela! A hemodiálise implica mudanças muito profundas na gestão do quotidiano dos doentes e seus familiares. A frequência das sessões obriga a deslocações frequentes aos centros de diálise. São necessárias alterações no regime alimentar, cuidados com os líquidos ingeridos e a prática de exercício físico. Vale a pena apostar neste tipo de abordagens que facilitem a adaptação dos doentes e suas famílias, em contexto de reabilitação renal”.

Um dos trabalhos desenvolvidos no âmbito deste projeto e já premiado aponta para necessidade de mais informação. “Há muitas dúvidas sobre o transplante, que as pessoas veem como o Santo Graal da doença renal crónica. São dúvidas sobre os critérios de elegibilidade, as condições para se ser dador, a vida depois do transplante. Também é preciso desmistificar a diálise em férias”, alerta.

Segundo Daniela Figueiredo, “os doentes e familiares têm noção dos cuidados a ter com a sua fístula (acesso vascular), a via pela qual é feito o tratamento dialítico, mas há outros cuidados para os quais os doentes não estão tão sensibilizados, como, por exemplo, quanto peso podem carregar. Ter esse tipo de informação dá-lhes uma sensação de segurança e de controlo que é importante”.

Com a emergência da COVID-19, o projeto teve de se adaptar. Conhecer o impacto da pandemia nesta população de risco torna-se, agora, essencial, tanto mais que a investigadora teme o agravamento de desigualdades.

“Estamos a ponderar alternativas e novos formatos, garantindo a segurança de todos e continuando com o nosso desígnio. Mas é claro que não estamos parados! Em breve irão sair resultados acerca do impacto da pandemia de COVID-19 nestes doentes e nos seus familiares. Temo que possam agravar-se algumas desigualdades e que sobretudo as pessoas mais dependentes, menos diferenciadas e com menos capacidade de aceder à tecnologia possam estar numa situação de desvantagem. Estou convicta de que as plataformas ajudam muito, mas que não substituem o contacto presencial”, comenta.

Ambição a 1 ano?

Não é tanto uma ambição, mas mais um desejo de que as coisas retomem alguma normalidade. Isto do ponto de vista pessoal e profissional. Do ponto de vista profissional, uma das ambições é concretizar este projeto, mesmo com contornos diferentes do inicialmente previsto, com resultados que possam ser promissores e que efetivamente tragam mais bem-estar a estes doentes e suas famílias e que possam ajudar os profissionais de saúde a repensar como este tipo de suporte se pode traduzir em ganhos de saúde

Ambição a 10 anos?

Quero continua a trabalhar nesta linha de investigação, com estes doentes, na reabilitação renal. Gostaria sobretudo de continuar a ter oportunidade de investigar e de continuar a formar mais e melhor com base no que vamos descobrindo. Também gostaria de contribuir para um olhar mais atento para os determinantes psicossociais de saúde e de doença, a par com as questões biomédicas, e que isso se traduza em intervenções e numa prática clínica que atenda a uma perspetiva integrada das pessoas com doença crónica. Há um caminho importante a fazer nesta vertente.

Que vida para além da investigação?

Tento aproveitar ao máximo o tempo com a minha filha, de quatro anos. Gosto de estar com ela, de brincar com ela. Todos os dias aprendo com a minha filha sobre o mundo e sobre mim própria. Isso é uma das coisas que mais felicidade me dá. Também aprecio tudo o que é simples: ir com a família a uma esplanada, ver as crianças a brincar, poder estar com os amigos e com a família, viajar sem me preocupar com GPS ou com relógios, ler livros de biografias e de comédia, ouvir música e cantar. Já fiz parte de um coro de gospel. Estou sempre a cantarolar.

Por | 2020-07-30T13:46:24+00:00 Julho 31st, 2020|Categorias: Entrevista, Profile|Tags: , , , , , , |Comentários fechados em Daniela Figueiredo: “Quero continuar a trabalhar com doentes renais e com as suas famílias”

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