Jorge Polónia: “Gosto muito de cozinhar, mas sem ponta de sal”

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Jorge Polónia: “Gosto muito de cozinhar, mas sem ponta de sal”

É comum vê-lo chegar na sua scooter. Gosta de cozinhar, mas sempre sem “ponta de sal”.  Foi médico de Miguel Torga, Curado Ribeiro e Fialho Gouveia, entre outras personalidades ilustres. Aos 66 anos, divide o seu tempo entre as salas de aula, o hospital e a investigação. Nos tempos livres, dedica-se ao modelismo naval. Sabe de quem se trata?

Estamos a falar de Jorge Polónia, investigador principal do grupo PharmaHTA, do CINTESIS, Professor Associado com Agregação em Medicina e Farmacologia Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, Coordenador da Unidade de Farmacovigilância do Porto, Consultor de Medicina e Hipertensão Arterial do Hospital Pedro Hispano/Unidade Local de Saúde de Matosinhos, além de membro do Board da Sociedade Europeia de Hipertensão.

Nasceu no Porto, numa família de médicos e professores universitários. Quis ser engenheiro químico, mas acabou por mudar de opinião quando frequentava o então Liceu D. Manuel II (atual Escola Básica e Secundária Rodrigues de Freitas), influenciado por um professor e pelo entusiasmo à volta da descoberta do ADN. Fez o curso na FMUP, entre 1970 e 1976, terminando com 17 valores e uma marca indelével deixada por três professores: Manuel Teixeira da Silva, Walter Osswald e Mário Cerqueira Gomes.

É médico especialista em Farmacologia Clínica e em Medicina Interna e Especialista Europeu de Hipertensão da ESH, (também fez o internato de Cardiologia, mas não foi a exame porque a Ordem dos Médicos só permite duas especialidades). Entre 1976 e 1998, fez toda a carreira hospitalar no Serviço de Medicina Interna do Hospital de São João, no Porto, onde montou um sistema pioneiro de monitorização ambulatória da pressão arterial (a MAPA de 24 horas, hoje utilizado por todos os profissionais de saúde).

Pelo meio foi research fellow numa unidade especializada em pressão arterial na cidade de Glasgow, no Reino Unido (1986 – 1987), concluiu o seu doutoramento pela FMUP (1989), fez a Agregação em Medicina (1993). Ao longo de 20 anos, foi médico nas Termas de Monfortinho, onde fez de tudo um pouco: assistiu médicos, artistas e empresários de renome, fez partos e chegou mesmo a realizar uma autópsia. Fomentou a investigação em África, nomeadamente em Moçambique. O seu primeiro doutorando (até agora orientou duas “mãos cheias” deles) foi também o primeiro aluno da Universidade do Porto a fazer a sua defesa a partir da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, depois do 25 de Abril.

Em 1998, assumiu o lugar de Professor Associado da FMUP e aceitou o desafio de montar, com o colega José Alberto Silva,  a Unidade de Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular do Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, considerada uma unidade de excelência pela Sociedade Europeia de Hipertensão, onde faz questão de conciliar assistência, ensino e investigação ao mais alto nível. “A investigação tem de ser publicada em revistas indexadas. A Ciência que não se publica não existe”, afirma o investigador, autor de mais de uma centena e meia de artigos científicos publicados em revistas internacionais, como o Top Paper do Hypertension, em 2016, e detentor de dezenas de prémios.

Há sensivelmente uma década fundou a Unidade de Farmacovigilância do Norte, entretanto rebatizada como Unidade de Farmacovigilância do Porto, que coordena desde o início juntamente com Altamiro da Costa Pereira, fundador do CINTESIS e atual diretor da FMUP. No CINTESIS, lidera o grupo de investigação PharmaHTA, dedicado à terapêutica, farmacovigilância e diagnóstico da hipertensão arterial, a sua área de eleição. Ou não fosse ele um dos autores das ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Sociedade Europeia de Hipertensão, publicadas em 2018.

Enquanto investigador, foi ainda coordenador do primeiro estudo de prevalência da hipertensão e consumo de sal em Portugal (estudo PHYSA). “Cada pessoa consome, em média, 10,7 gramas de sal por dia, o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, com consequências nefastas na saúde, como acidente vascular cerebral, cancro do estômago, obesidade, cálculos renais, osteoporose, etc.)”, alerta.

Este e outros estudos estiveram na base de importantes iniciativas legislativas, como a primeira lei a restringir o sal no fabrico do pão a nível nacional. Mas o responsável sabe que legislar não chega. Por isso, está a coordenar, com Conceição Calhau, a iniciativa Menos Sal Portugal, que visa diminuir consumo de sal entre os portugueses através da mudança de hábitos alimentares.

Jorge Polónia dá o exemplo. “Em minha casa não entra ponta de sal. Gosto muito de cozinhar e faço um assado delicioso. O importante é saber gerir as ervas aromáticas. Mas não basta diminuir o sal. Também é fundamental aumentar o consumo de potássio”, garante, a propósito de outro estudo da sua autoria.

Quanto ao futuro, prefere não fazer grandes planos, mas está longe de pensar na reforma. Espera continuar a ajudar os seus alunos, colegas e doentes, contribuindo para soluções que permitam promover a saúde dos portugueses.

Ambição a 1 ano

Quero continuar a trabalhar porque faço o que gosto, mas não faço planos a mais de seis meses.  A vida dá muitas voltas, há muitos imponderáveis. Nós é que temos de nos adaptar aos tempos e não os tempos a nós.

Ambição a 10 anos

Provavelmente irei continuar a trabalhar. Espero morrer a trabalhar. Não quero ter uma reforma tranquila, ao sofá e a ver televisão.

Vida para além da investigação?

Vivo com a minha mulher e tenho um neto, que está em Londres, com quem falo todos os dias. Nos tempos livres, gosto muito de andar de bicicleta, praticar ski, de passear a Mel (um labrador) e de fazer modelismo naval. Cada navio demora cerca de ano e meio a fazer. Enquanto as mãos se mexem, a cabeça repousa.

Por | 2019-06-12T18:43:47+00:00 Abril 4th, 2019|Categorias: Entrevista, Profile|Tags: , , , , , , , |Comentários fechados em Jorge Polónia: “Gosto muito de cozinhar, mas sem ponta de sal”

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