Maria Manuela Martins: “Quero continuar a investigar e a ser feliz!”

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Maria Manuela Martins: “Quero continuar a investigar e a ser feliz!”

Aos 64 anos de idade, Maria Manuela Martins é uma referência incontornável na Enfermagem portuguesa, em particular na investigação e na docência, áreas que a que se dedica, com paixão, no CINTESIS, onde é investigadora do grupo NursID, e na Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP), onde é professora coordenadora e membro do Conselho Geral. A história da sua vida está repleta de causas e de inspiração.

Nasceu numa pequena aldeia de Vila Nova de Famalicão, de seu nome Delães, filha de um contabilista e de uma costureira. A única ligação familiar à saúde vem do bisavó farmacêutico. Estudou no Externato Delfim Ferreira – Riba D´Ave e no Colégio D. Diogo de Sousa, um colégio católico situado em Braga, onde fez o curso complementar dos liceus numa turma em que era a única rapariga.

“Na minha turna, eram 31 rapazes e eu era a única rapariga. Foi uma experiência muito boa, embora tenha sido difícil, no início. Todos tinham muito respeito por mim. Os professores tratavam-me por senhora.” [risos] Foi sempre uma aluna com boas notas, com exceção de Introdução à Política, em que foi reprovada, antes do 25 de abril de 1974. “Estava habituada a dizer o que pensava”, justifica. Não admira que tenha vivido a “Revolução dos Cravos” com especial alegria. Até fugiu às freiras para festejar.

Os pais queriam que seguisse Medicina, ela queria arquitetura. Foi só durante o Serviço Cívico que decidiu que queria seguir Enfermagem, apesar da oposição dos pais. Ainda fez um ano de Arquitetura até ingressar na Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian, em Braga, onde concluiu o curso, em 1979.

Em janeiro de 1980, começou a trabalhar no Hospital de São João de Deus, em Famalicão, onde esteve até 1991. Começou como “enfermeira de cabeceira”, foi enfermeira especialista em Reabilitação e Enfermeira-Chefe do serviço de Medicina, onde criou o departamento de formação e a Casa do Pessoal e implementou uma série de projetos pioneiros no país. Chegou ao topo da carreira. Em 1991, aceitou o convite para ser professora da ESEP, onde já dava aulas desde 1985. Acumulou a docência com a atividade de enfermeira e responsável de uma clínica de hemodiálise em Riba de Ave e ajudou a criar, de raiz, o primeiro Hospital do Grupo Trofa Saúde, na Trofa, atividades que deixou, no início do novo milénio, para fazer Doutoramento em Ciências da Enfermagem pela Universidade do Porto.

Antes disso, tinha já realizado vários cursos de pós-graduação, incluindo o Curso de Administração dos Serviços de Enfermagem, na ESECP, com um trabalho comparativo da qualidade dos cuidados em dois hospitais (área em que fez também formação na Universidade do Rio de Janeiro, no Brasil, em 1983), e o Mestrado em Desenho e Investigação em Serviços Socias pela Universidade da Extremadura (Espanha), onde desenvolveu um estudo nas famílias de doentes com AVC.

Ajudou a implementar, a nível nacional, o Sistema de Classificação de Doentes por graus de dependência em cuidados de Enfermagem, a convite da Direção-Geral dos Hospitais, e fez parte do projeto de Normalização do Processo Clínico. Foi pioneira, como formadora, no projeto de planeamento de altas, criado em vários hospitais-piloto, de forma a prevenir internamentos inapropriados e garantir a continuidade dos cuidados. Trabalhou igualmente  no grupo de trabalho do projeto do Centro de Reabilitação do Norte, Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) e fez parte da comissão de verificação técnica de unidades de hemodiálise.

A investigação esteve sempre presente na sua vida. O seu primeiro trabalho foi sobre Cuidados de Enfermagem no paraplégico por traumatismo vértebro-medular e o aparecimento de urolítiase. Estava, então, no Hospital de Santo António, durante o estágio da especialidade de Enfermagem de Reabilitação, na década de 80. É investigadora do CINTESIS há vários anos, coordenando vários projetos: “Promoção da saúde na família ao longo do ciclo de vida e transições”, “Dos paradigmas à operacionalização da gestão em Enfermagem” e “Personal Trainer para a Gestão da Saúde de Pessoas com mais Idade” (PT4Ageing), cujos resultados serão adaptados para aplicação à distância, devido à emergência da pandemia de COVID-19.

Foi no âmbito do PT4Ageing que a sua equipa desenvolveu um tapete para treino da marcha e do equilíbrio (The Show Balance Walking) e umas meias/sapatos (3S – Smart Safe Shoes) para prevenção de quedas nos idosos, este último com a colaboração da empresa Peúgas Carlos Maia, Lda (CMSOCKS) de Famalicão e do CITEVE – Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário. Aguarda-se agora financiamento para avançar com o fabrico destes dispositivos inovadores, cuja patente detém, juntamente com as dos jogos de mesa que desenvolveu (“Dar voz aos cuidadores”).

Maria Manuela Martins escreveu e publicou vários livros, capítulos em livros e cerca de uma centena de artigos científicos. Recebeu vários prémios e distinções, entre os quais o de Mérito Municipal de Benemerência do Município de Vila Nova de Famalicão, a homenagem do Movimento Lírio Azul pelo trabalho desenvolvido em defesa das mulheres e o Prémio Maria de Lurdes Sales Luís (2018), da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Especializados em Enfermagem de Reabilitação pelo seu trabalho na promoção da igualdade de oportunidades, dos direitos das pessoas com deficiência e do exercício da cidadania.

Considera-se uma mulher de causas, recusando certos rótulos. “Não me considero uma feminista, mas uma defensora dos direitos das mulheres. Reconheço que sou muito crítica em relação à sociedade que nos discrimina. Uma mulher tem, muitas vezes, de fazer o dobro do esforço do que um homem para chegar ao mesmo lugar. Mas nós também temos culpa porque não temos essa cultura e porque as mulheres continuam a educar os meninos para vencerem e as meninas para serem submissas”, lamenta.

No balanço de uma vida, Maria Manuela Martins tem a consciência tranquila. “Não perdi oportunidades. Trabalhei muito, quase loucamente, mas adquiri muito conhecimento e experiência que ainda hoje suportam muito do meu trabalho”, diz. Orgulha-se particularmente da excelente relação com os seus alunos e emociona-se ao vê-los “ganhar asas”.

Como enfermeira especialista em Reabilitação, admite que há um longo caminho a percorrer, em Portugal, na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. “Fala-se destas pessoas como coitadinhas, querem atribuir-lhes subsídios, quando o que se devia era proporcionar-lhes as condições para um trabalho adaptado, de forma digna. Essa é, para mim, uma angústia muito grande. Acho que a sociedade não evoluiu no sentido de respeitar as pessoas com diferenças. Fala-se em protegê-las, mas elas não precisam de proteção, precisam é de condições para exercerem os seus direitos e para viverem bem na sua condição. Não é isto que acontece no dia a dia, inclusive nas organizações de saúde”, entristece-se.

A política tem sido um instrumento na luta pelas causas que abraça. Foi vereadora da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão no anterior mandato, pelo PSD. Atualmente é Conselheira Local para a Igualdade, dando constantemente pareceres, com o apoio de um grupo que inclui profissionais de várias áreas. Daqui resultou, por exemplo, um Manual de Boas Práticas sobre Violência ao longo do Ciclo Vital. “Só me envolvo na política para defender as minhas ideias e as minhas causas. Quem manda é quem está na política e, se não estivermos nesses fóruns, nunca seremos ouvidos”, reforça.

Não foi a arquiteta que um dia sonhou ser, mas mantém uma colaboração estreita com vários arquitetos, nomeadamente no Mestrado em Reabilitação da ESEP, onde leciona várias unidades curriculares, e no “desenho” de unidades de saúde amigas dos doentes, sempre com o objetivo de ultrapassar barreiras sociais e arquitetónicas em saúde, quer para doentes, quer para os trabalhadores.

“Nós, enfermeiros, estamos mais sensíveis a pormenores que os arquitetos não valorizam. Há coisas que são muitas vezes esquecidas, como, por exemplo, espaço suficiente nas casas de banho. Embora esteja claro na lei, não imaginam os erros que ainda são cometidos. Mas há outros erros, para não falar na falta de materiais, tais como elevadores ou “transfers” para os doentes. Noutros países, os enfermeiros não levantam doentes senão com recurso a tecnologia para esse fim. Há muitas soluções novas que nem são muito dispendiosas e que ainda não estão em uso nos nossos hospitais. Às vezes gasta-se mais num quadro do que em algo que dê conforto aos doentes”, lamenta.

Quanto ao futuro, continua a fazer planos. Muitos planos. Sempre com uma energia contagiante e um sorriso permanente nos lábios.

Ambição a 1 ano?

Estou prestes a ficar aposentada do ensino, mas quero continuar a investigar. Gostava de continuar a pertencer ativamente ao CINTESIS e a manter os meus contactos internacionais em termos de investigação.

Ambição a 10 anos?

Aos 75 anos, quero ser uma mulher feliz, a empurrar o mundo. Vejo-me a fazer investigação. Enquanto tiver capacidade, pelo menos quero pôr os outros a pensar. Se não tiver capacidade de me mexer, pelo menos quero pôr os outros a mexer. Daqui a 10 anos, espero ser um espírito bom.

Também me vejo a manter atividade na Associação Portuguesa dos Enfermeiros Gestores, na Associação Portuguesa dos Enfermeiros de Reabilitação e na Revista Portuguesa de Enfermagem de Reabilitação, como editora-chefe.

Que vida para além da investigação?

Estou a criar na minha oficina (a pintar, a fazer trabalhos manuais, a imaginar peças, a fazer desenhos). Faço colares, brincos, coisas mais pequenas, que faço só para oferecer. Até a sonhar, estou a fazer desenhos de peças. Para mim, o dia devia ter mais horas. Por isso, sou muito organizada, organizo muito bem o meu dia, numa lista de afazeres, e faço por atingir os meus objetivos, mas procuro diversificar e ter tempo para descansar. O meu descanso, geralmente, não é dormir. Gosto muito de passear, com o meu marido. Não consigo estar muito quieta no mesmo sítio. Entramos na autocaravana e vamos por esse mundo fora. Fazemos viagens temáticas. A primeira viagem do género que fizemos foi à Roménia depois de termos lido “A Bruxa de Portobello”, de Paulo Coelho. Este foi o primeiro ano em que não viajei para fora do país. Vejo-me a viajar muito nos próximos anos.

Por | 2020-11-10T16:26:01+00:00 Novembro 9th, 2020|Categorias: Entrevista, Profile|Tags: , , , , , , , , |Comentários fechados em Maria Manuela Martins: “Quero continuar a investigar e a ser feliz!”

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