Miguel Areia quer rastreio nacional em cancro colorretal

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Miguel Areia quer rastreio nacional em cancro colorretal

Miguel Areia é membro do Grupo de Investigação iGO, integrado na Linha de Investigação 2 – Investigação Clínica e de Translação, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

Nasceu em 1975, em Bruxelas, onde o pai estava na altura a fazer o doutoramento em Antropologia. Tinha poucos meses quando regressou a Coimbra. Sempre se considerou “uma pessoa das ciências”, “muito racional”, mas também com “o gosto de ajudar o outro”. Não teria de ser necessariamente como médico, mas a medicina pareceu-lhe “uma escolha mais ou menos óbvia”.

Concluiu a licenciatura em Medicina pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1999 e fez o internato geral nos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde viria a concorrer à vaga de gastrenterologista. Acabou a especialidade em 2007. Em 2008, transferiu-se para o IPO de Coimbra já como médico especialista e em 2009 fez o mestrado em Medicina pela FMUC e concorreu ao Programa Doutoral em Investigação Clínica e Serviços de Saúde na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), liderado por Altamiro da Costa Pereira e sob orientação de Mário Dinis-Ribeiro.

Concluiu o doutoramento em 2014, com uma série de trabalhos na área do cancro gástrico, mais concretamente na deteção e vigilância das lesões pré-malignas no estômago, no âmbito da prevenção. “Quando estava a fazer o internato, tinha a sensação de que os resultados da endoscopia dependiam mais do médico com quem eu estava a trabalhar do que propriamente dos achados endoscópicos. Era algo que me metia confusão e que eu achei que merecia ser estudado. A minha conclusão é que só vale a pena seguir os doentes entre os 50 e os 75 anos, nas gastrites consideradas severas ou extensas – e para isso temos critérios definidos – e basta fazer uma endoscopia de 3 em 3 anos”, argumenta o investigador do CINTESIS.

O estudo de Miguel Areia foi um dos que serviram de base à Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal (ESGE) para adaptar as suas recomendações, passando a aconselhar a realização de endoscopia de 3 em 3 anos. E é assim que o especialista faz na sua prática clínica, no IPO de Coimbra.  “As pessoas têm muito a ideia de que no IPO só tem doentes com cancro. Felizmente, não é bem assim. Nós, gastrenterologistas, temos muitos doentes não oncológicos com gastrites mais ou menos extensas e severas e com pólipos que temos de remover para evitar o cancro”, continua.

Pessoalmente, não tem dúvidas de que a investigação fez dele um melhor clínico. “Sempre gostei do trabalho de investigação e tentar responder a questões pendentes. Acho que hoje sou melhor médico do que era há 10 anos porque sou melhor investigador do que era há 10 anos”, considera.

Miguel Areia tem ainda responsabilidades como novo presidente da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED), cargo que ocupará até 2021, e como membro da Comissão de Qualidade da ESGE, sendo responsável pela qualidade da endoscopia digestiva alta.

Ambição a 1 ano?

Existe uma aplicação na qual os gastrenterologistas a nível europeu podem reportar uma série de critérios de qualidade das endoscopias digestivas. Vamos ter os primeiros resultados. Mais do que guidelines, queremos saber o que está a ser feito e avaliar.

Ambição a 10 anos?

Como investigador, pretendo continuar o estudo de lesões pré-malignas do estômago no CINTESIS, juntamente com os meus colegas Mário Dinis-Ribeiro e Pedro Pimentel Nunes. Queremos saber se o prazo de 3 anos que recomendámos para a realização de endoscopia é aplicável do ponto de vista prático. Trata-se de um projeto internacional e multicêntrico em que veremos se conseguimos detetar sempre as lesões antes do cancro. O projeto foi apresentado recentemente e está numa fase inicial.

Como gastrenterologista, tenho alguns objetivos que gostaria de ver concretizados a 10 anos. São realmente ambiciosos. Um era ter, em Portugal, um rastreio nacional para o cancro do cólon e reto, a partir dos 50 anos, em pessoas assintomáticas (sem queixas), de 2 em 2 anos, através de exame de sangue oculto nas fezes, seguido de colonoscopia nos casos positivos.

O cancro colorretal é, neste momento, o cancro que mais mata em Portugal. Em teoria, todos estes cancros seriam evitáveis se os pólipos fossem retirados a tempo. É o cancro ideal para ser rastreado. Temos uma janela grande de oportunidade e é uma pena não estarmos a aproveitá-la. Neste momento, temos alguns projetos regionais, mas ainda não há um rastreio nacional. Primeiro, há sempre o problema do dinheiro. É sempre difícil convencer os governantes a fazer estes gastos que não produzem resultados imediatos. Por outro lado, tem havido uma grande resistência da parte dos gastrenterologistas, que continuam a defender o rastreio por colonoscopia. Eu concordo que a colonoscopia é o exame ideal para estudar o cólon, não concordo que seja o exame ideal para se fazer um rastreio, que deve ser simples, barato e isento de riscos. Nem todas as pessoas sem queixas aceitam ser submetidas a uma colonoscopia, além de que é um exame caro e com alguns riscos ainda que raros. Há ainda um outro problema: há hoje listas de espera para colonoscopia. Ou seja, se tentássemos implementar o rastreio com base na colonoscopia, seria impossível. Só há um país que faz rastreio por colonoscopia, que é a Polónia, e mesmo assim só consegue chegar a 10% da população.

Outro projeto, este no âmbito da SPED, é ter uma base de dados nacional de endoscopias, algo que só existe no Reino Unido. Essa base, que ficaria centralizada no Ministério da Saúde e agregaria milhares de endoscopias realizadas por gastrenterologistas, de forma instantânea, o que permitiria ter dados em relação à qualidade e dados para a investigação.

Que vida para além da clínica e da investigação?

O meu grande “antisstress” são os meus três filhos, de 17, 14 e 9 anos. Os meus hobbies são a música e o desporto. Tirei o curso de violino no Conservatório. Foi uma formação mais clássica, mas sempre fui tendo grupos amadores. Neste momento, tenho um grupo chamado Quarentuna de Coimbra. O termo vem de quarentões que já tocaram nas várias tunas da Universidade de Coimbra. Fazemos arranjos de músicas de Coimbra e damos espetáculos.

O desporto, para mim, também é fundamental. Para quem não sabe, fazer endoscopias de segunda a sexta pode provocar torcicolos e muitas dores. Desde há muitos anos que faço natação, do ponto de vista puramente amador. Como sempre quis que os meus filhos fizessem natação, em vez de ficar a olhar para eles na piscina, ia também nadar. Por isso, há 17 anos, quando vou levar os meus filhos à piscina, vou nadar também. Faz-me muito bem.

 

Por | 2019-12-04T16:50:08+00:00 Dezembro 5th, 2019|Categorias: Entrevista, Profile|Tags: |Comentários fechados em Miguel Areia quer rastreio nacional em cancro colorretal

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